Ir para o conteúdo
Tu Letra Online Editora
Idioma da página
Lectura · 22 de Outubro de 2026

Halloween e literatura: os monstros que continuam lendo dentro de nós

Das celebrações que Robert Burns transformou em poesia às sombras de Mary Shelley, Poe e Bécquer, o Halloween é uma oportunidade de voltar aos livros e descobrir o que se esconde por trás do medo.

Há um momento, depois que fechamos um conto de terror, em que a casa parece outra. O corredor continua ali, a janela mantém sua forma e ninguém mudou a cadeira de lugar. Algo, porém, mudou: agora estamos à escuta. A literatura fez caber uma possibilidade inquietante num espaço conhecido.

Quando chega o dia 31 de outubro, o Halloween enche as ruas de criaturas conhecidas. Mas, por trás de algumas dessas figuras, há histórias muito mais incômodas do que suas fantasias. Voltar aos livros permite recuperar o que a máscara esconde: a solidão do monstro, a fragilidade de quem narra e os motivos que nos levam a querer chegar perto daquilo que nos assusta.

A relação entre o Halloween e a escrita também deixou registros muito antes da nossa cultura de telas. Em “Halloween”, Robert Burns retratou uma celebração rural escocesa em que o flerte, o riso e os rituais de adivinhação do futuro convivem. O poema faz parte de sua coletânea de 1786, preservada no Eighteenth-Century Poetry Archive.

Os participantes procuram sinais de futuros amores em plantas e frutos secos levados ao fogo. A incerteza vira uma brincadeira coletiva. Lido hoje, o poema revela uma dimensão que a vitrine do terror pode esconder: o desconhecido também reúne uma comunidade. Há diversão, expectativa e vontade de imaginar juntos o que ainda não aconteceu.

Essa mistura de atração e temor ajuda a entrar em outros territórios literários, embora as obras não se passem no Halloween nem tenham sido escritas para celebrá-lo. A festa pode servir de porta de entrada; depois, cada livro nos leva às suas próprias perguntas.

Pensemos em Frankenstein, o romance que Mary Shelley publicou em 1818. Sua criatura percorreu um longo caminho até se tornar uma silhueta reconhecível. A Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos documenta como as adaptações transformaram um ser sensível, capaz de raciocinar e falar, numa figura brutal e muitas vezes sem voz.

A diferença importa. Quando a criatura pode narrar seu sofrimento, o leitor já não tem o conforto de julgá-la apenas pela aparência. A nosso ver, aí está uma das forças do livro: ele nos obriga a pensar na responsabilidade de quem cria uma vida e depois a abandona. A violência continua presente, mas também a necessidade de compreender o que levou até ela.

Edgar Allan Poe nos aproxima do medo por outro caminho: a voz que tenta nos convencer. Em “O coração delator”, o narrador insiste na própria lucidez enquanto conta um crime. O conto está disponível no original em inglês no site do Poe Museum. O Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos destaca justamente a incerteza provocada por esse narrador pouco confiável.

Poe deixa uma lição valiosa para nós que escrevemos: o terror também depende de como dosamos as informações. Uma explicação insistente demais pode levantar suspeitas; uma repetição pode acelerar a leitura; um som pode tomar conta de tudo. Às vezes, basta deixarmos de confiar em quem nos conduz para que um cômodo se torne insuportável.

Na literatura em espanhol, essa proximidade entre uma noite especial e uma narrativa inquietante tem um exemplo extraordinário em “O monte das Almas”, de Gustavo Adolfo Bécquer. É importante preservar o contexto da obra: o texto fala do Dia de Todos os Santos e da noite de Finados. Relacionar sua leitura ao Halloween permite aproximar tradições sem confundi-las.

A lenda começa com alguém que ouve sinos e se lembra de uma história de Soria. Mais adiante, o medo cresce entre avisos, silêncios e ruídos noturnos. No texto da Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, podemos acompanhar a passagem de uma conversa para uma espera angustiante. Bécquer faz o leitor ficar em alerta junto com seus personagens: cada ruído parece anunciar uma presença.

Burns, Shelley, Poe e Bécquer oferecem experiências distintas. Reuni-los permite pensar o Halloween como uma breve exploração das formas do medo: a expectativa coletiva, a responsabilidade pelo que se cria, a desconfiança de uma voz e a ameaça que se aproxima sem se revelar por inteiro. O percurso fica mais interessante quando prestamos atenção a essas diferenças.

É essa possibilidade de leitura que nos interessa na Tu Letra Online. Podemos aproveitar a data para ler um conto em voz alta, conversar sobre uma adaptação ou voltar a uma obra que achávamos conhecer pelas imagens. Para quem escreve, também pode ser um bom exercício: escolher um lugar cotidiano e decidir que detalhe bastaria para torná-lo estranho.

Os enfeites vão desaparecer quando a festa acabar. Talvez uma história fique por mais algum tempo, toda vez que uma tábua ranger no corredor e pararmos para escutar.

Que conto ou romance mudou sua maneira de sentir medo? O que se ganha e o que se perde quando uma criatura literária vira uma fantasia reconhecível? Que história do lugar onde você vive você compartilharia numa noite de leitura? Convidamos você a contar sua experiência, defender sua interpretação ou discordar com respeito.

  • Halloween
  • literatura de terror
  • literatura gótica
  • Robert Burns
  • Mary Shelley
  • Edgar Allan Poe
  • Gustavo Adolfo Bécquer
  • escritura creativa

¿Qué te ha parecido?

Do que fala

Os livros