Pablo Martín Sánchez vence o Prêmio Nacional de Tradução por “Lugares”
Não corrigir pode ser uma escolha em nome da precisão. Entre os motivos para premiar a tradução de Lugares, de Georges Perec, o júri destacou uma tarefa discreta e especialmente delicada: identificar e respeitar as incoerências de uma obra inacabada. Em 15 de outubro de 2026, o Ministério da Cultura anunciou o Prêmio Nacional de Melhor Tradução para Pablo Martín Sánchez e o Prêmio Nacional pela Obra de um Tradutor para Olivia de Miguel. O primeiro oferece uma oportunidade concreta de discutir onde termina o cuidado editorial e onde começa a transformação de um livro alheio. (cultura.gob.es)
A conversa continuou: o programa Um idioma sem fronteiras, da Radio Nacional de España, dedicou a edição de 26 de outubro aos dois profissionais. A apresentação do programa põe em primeiro plano as dificuldades e a beleza do ofício. Vale manter essa atenção depois do anúncio dos prêmios: perguntar não só quem ganhou, mas quais decisões permitem que uma obra chegue aos leitores em outra língua. (rtve.es)
Um lugar visto e um lugar lembrado
A Anagrama publicou Lugares em espanhol em 2 de abril de 2025, com tradução de Pablo Martín Sánchez. A ficha do livro informa que o volume tem 824 páginas e explica como o projeto funciona: doze lugares de Paris ligados à vida do escritor, descritos a partir da observação direta e da memória, segundo um plano que deveria se estender por doze anos. O prêmio é recente, mas essa edição do livro não é um lançamento. Distinguir as duas datas ajuda a entender o que traz a obra de volta à conversa agora. (anagrama-ed.es)
O prólogo, disponível no trecho de leitura oferecido pela editora, detalha essa separação. Perec queria descrever o que via no local e, em outro momento, evocar de memória um lugar. Depois, guardava os textos em envelopes lacrados. Não se tratava apenas de registrar ruas: o projeto pretendia tornar perceptíveis as mudanças nos espaços, nas lembranças e na própria escrita. Esta análise se baseia nesse trecho e na documentação do prêmio, não na leitura integral do volume. (anagrama-ed.es)
O procedimento sugere um exercício fértil para qualquer escritor: deixar que a descrição e a evocação produzam versões diferentes, sem obrigá-las a se conciliar de imediato. Você pode fazer a experiência com uma praça, um quarto ou uma esquina familiar. Escrever primeiro o que se lembra e depois o que se observa permitiria perguntar o que pertence ao lugar e o que foi acrescentado por quem o vê. Não é preciso reproduzir a arquitetura do projeto para explorar essa distância.
A fidelidade também pode preservar asperezas
Segundo a justificativa do júri, traduzir Lugares exigiu cotejar fragmentos dispersos, preservar o aparato crítico e recriar jogos de palavras com recursos do espanhol, entre eles os neologismos. O reconhecimento, portanto, não se limita a celebrar uma prosa que soe natural: destaca o trabalho de pesquisa, comparação e criação verbal. A documentação do ministério apresenta essas tarefas como parte do mérito específico da tradução. (cultura.gob.es)
Aqui há uma distinção importante para leitores e editores. Uma contradição pode ser um descuido que convém corrigir, mas também pode refletir o estado em que um manuscrito chegou. Cabe a quem edita perguntar que evidências permitem distinguir uma coisa da outra. Aparar todas as arestas poderia tornar a leitura mais confortável
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