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Noticia · 2 de Novembro de 2026

Uma feira sem suas editoras: o boicote que põe em xeque a volta do livro a Las Palmas

A Feira do Livro de Las Palmas de Gran Canaria voltará ao parque San Telmo de 19 a 22 de novembro. O evento não é realizado desde maio de 2024. A volta, porém, terá uma ausência que muda o sentido do evento: as 25 editoras reunidas no Gremio de Industrias Editoriales de Canarias (GRECA) anunciaram, por decisão unânime, que não participarão.

O boicote transforma um problema de organização em um debate cultural mais amplo. Uma feira pode manter suas datas, seus estandes e sua programação, mas parte dos laços que a sustentam se desfaz quando as editoras da região sentem que só foram chamadas para a conversa tarde demais.

Uma semana para decidir

A prefeitura abriu a chamada pública em 26 de outubro. Informou que livrarias, editoras e outras entidades poderiam se inscrever gratuitamente até o dia 30. Segundo a imprensa local, as regras haviam sido publicadas no dia 23: o setor teve cerca de uma semana para organizar sua participação em uma feira que começaria em menos de um mês.

O GRECA afirma que esse prazo não permite organizar a participação de autores, as apresentações de livros, a logística e os compromissos profissionais com a seriedade que um evento consolidado exige. A entidade também questiona a localização e a distribuição dos espaços no parque San Telmo, que, a seu ver, não oferecem condições adequadas de conforto, acessibilidade e funcionamento.

Segundo o comunicado divulgado pela Agência EFE, a decisão não significa abandonar a feira. As editoras se dizem abertas ao diálogo para as próximas edições e cobram continuidade, planejamento e participação efetiva do setor na concepção do evento.

Autógrafos fora dos estandes

As sessões de autógrafos são um dos pontos mais visíveis da divergência. As regras não proíbem a atividade, mas a retiram dos estandes: ela deverá ocorrer em espaços e horários autorizados pela organização.

A prefeitura apresenta uma justificativa prática. Parte dos estandes ficará em corredores estreitos, e concentrar os autógrafos em áreas específicas ajudaria a evitar aglomerações e manter a circulação. Para o GRECA, porém, afastar o autor do estande enfraquece uma das relações centrais de qualquer feira: o encontro direto entre quem escreve, quem edita, quem vende e quem lê.

A diferença não é pouca coisa. Uma sessão de autógrafos pode parecer apenas uma ação promocional, mas, para uma editora independente, também serve para apresentar seu catálogo, dar visibilidade a vozes com menos espaço no mercado e transformar uma venda avulsa em um vínculo duradouro com o leitor.

Duas versões da mesma volta

A prefeitura afirma que já vinha trabalhando havia semanas na programação com a Asociación de Librerías de Canarias (ACOLI). No anúncio, apresenta a retomada da feira como uma demonstração de apoio ao livro e à leitura e destaca que a participação nos estandes será gratuita.

O GRECA responde que ouvir uma parte do setor não dispensa a participação das demais. As editoras também pedem explicações sobre a interrupção após a edição de maio de 2024 e alertam que a falta de continuidade dificulta fidelizar o público, firmar um calendário e consolidar parcerias profissionais.

As duas posições concordam em um ponto essencial: Las Palmas precisa de uma feira do livro. A disputa está nas condições necessárias para que o setor responsável por sustentá-la também a reconheça como sua.

A feira como infraestrutura cultural

Uma feira do livro não é apenas um conjunto de estandes. É uma infraestrutura temporária que põe em contato políticas públicas, livrarias, editoras, autores, bibliotecas e leitores. Se um desses elos fica de fora do planejamento, a programação pode se manter de pé, mas a conversa perde alcance.

O caso de Las Palmas deixa uma pergunta que vale para muitas cidades: basta organizar uma feira para fortalecer o ecossistema do livro ou é preciso construí-la com quem trabalha o ano inteiro para que os livros existam e circulem?

O anúncio do boicote não trará a resposta. Ela virá do que acontecer antes de 19 de novembro, da capacidade das partes de retomar o diálogo e, sobretudo, da maneira como a próxima edição será preparada. A volta já está marcada; falta recuperar a confiança.

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